sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Lembranças de minha infância


Entrada de nossa casa
em São José dos Campos
Nasci em São José dos Campos, em São Paulo. Morava na Rua Justino Cobra, 235, na Vila Ema. Morei lá até meus oito anos, quando mudamos para Fortaleza. Em São José estudava no Grupo Escolar Olímpio Catão, mas tive antes uma professora particular, da qual não lembro o nome. Ia sozinho, de ônibus. Um frio danado, mas fazer o que?

Para vocês terem uma idéia de como era São José dos Campos naquela época, uma das vezes que voltava da escola (acho que gazeei alguma aula) desci na Esplanada e, com um colega, laçamos dois cavalos. Levamos os animais até o muro da casa do Tio Raimundo e, sem ninguém ver, pegamos umas almofadas. Subimos no muro e do muro para os cavalos... Depois de uns 10 minutos de passeio um susto: o dono apareceu! E nos dando um carão, nos fez descer e levou “nossos” cavalos, com as cordas e as almofadas... Deve ter ficado com elas. Se o cara entregou para o Tio Raimundo não tomei conhecimento.

A chegada da televisão em nossa casa foi um acontecimento. Deve ter sido por volta de 1957, por aí. Um aparelho com gabinete metálico vermelho, de fabricação americana. Minha mãe me dizia que descobriram que eu tinha aprendido a ler nos “reclames” da televisão. As leituras também foram importantes nesta época. Lia Contos de Andersen, Contos de Grimm, a coleção de Monteiro Lobato inteira (mais de uma vez), além de fuçar muitas no Tesouro da Juventude, uma coleção muito boa. Marcou muito em minha criação a leitura da séria “Antes que aprendam na rua”, projetada para crianças até 12 anos. Em São José dos Campos também ganhei minha primeira sanfona, depois que tinha começado a aprender a tocar com Dona Ivone, minha primeira professora de música. Na foto ao lado eu e meu irmão Getúlio. Aparece também o meu gato Babu, nome que permaneceu em quase todos os gatos que tivemos em nossa casa. 

A mudança para Fortaleza

Uma curiosidade: meu pai colocou três pedacinhos de papel, com os nomes Brasília, Belo Horizonte e Fortaleza. E pediu para que eu escolhesse um dos papéis, em uma ação de pura sorte esteve o nosso futuro. E após o sorteio de Fortaleza, meu pai disse para a minha mãe: “Zisile, pode vender tudo”, se referindo às casas e móveis. Assim mudamos para Fortaleza. 

Meus pais, Alberto Ribeiro e Zisile
Quando chegamos a Fortaleza, em 1960, meus pais alugaram uma casa no Bairro de Fátima, que ficava bem atrás do Colégio Nossa Senhora das Graças, na Rua Monsenhor Otávio de Castro. A casa tinha sido conseguida pela minha “Tia Freira”, a irmã Margarida como era chamada. Tínhamos de mobília apenas um beliche, uma mesinha com cadeiras, uma moringa e uma cama. O papai me disse quando o avião (um quadrimotor Super Constelation) sobrevoou Fortaleza, que minha saúde iria mudar e que jogaria minha bronquite no mar – e foi o que aconteceu!

Ainda no primeiro endereço estudei no educandário Gabriela Mistral. O Colégio Nossa Senhora das Graças era pertinho. Quando eu ia por lá visitar levado por minha tia, que era freira, lembro que as estudantes me colocavam para falar palavras como “vermelho” e “Fortaleza”, naturalmente para curtirem o “r” de meu sotaque paulista. Estranhava bastante os ônibus (todos antigos, a maioria muito velhos e com frente de caminhão)... Também não entendia porque o pessoal de Fortaleza bebia “Taí”, tal como as placas “Beba Tai” em todos os locais (era uma marca de refrigerante), enquanto que em São Paulo “Taí” era uma água sanitária...

Posteriormente mudamos para um apartamento que ficava pertinho da Igreja da Sé, no final da Costa Barros. Brincava muito ao redor da Igreja que estava em plena construção. Passei a estudar no Colégio Santa Lúcia, que ficava na Costa Barros. Do apartamento cheguei a levar várias vezes o almoço do papai até a Cooperativa da Construção, que ficava na Rua Floriano Peixoto. Ia sozinho, imaginem! Mas naquela época não era problema. Depois andava na Praça do Ferreira e olhava algumas lojas para ver carrinhos de brinquedo, aviões, equipe do Exército ou de algum Forte Apache, alguma “novidade” para minha coleção. Na Cooperativa quando atendia ao telefone no intervalo do almoço do papai, e ficava muito invocado quando as pessoas diziam: “a senhora poderia chamar”...  Confundiam minha voz de criança com a de uma atendente... 

Nova mudança

Outra mudança de endereço: agora para a Rua Mário Mamede, 590, no bairro Treze de Maio. Uma casa nova, em um ambiente bem melhor, no qual conheci vários amigos da vizinhança. O José Wilson (hoje médico) e o Carlos Henrique eram os principais. Lembro de ter visto ao longe um grande incêndio após o descarrilamento de um trem. Como tudo era bastante descampado deu para ver ao longe a movimentação, os bombeiros tentando o acesso e o céu todo avermelhado pelas chamas. Nesta casa estudei para a primeira comunhão, freqüentava a Igreja de Fátima da qual cheguei a ser coroinha por algum tempo, com mais dois colegas. Brigávamos para “ajudar a missa”, que ainda era celebrada em Latim. Por indicação da Tia Freira cheguei a participar de uma procissão, no Dia 13 de Maio, vestido de anjo, no carro da Nossa Senhora de Fátima. Novo colégio, o Christus. Um ônibus do próprio colégio vinha me pegar e deixar em casa. 

Nesta nova morada aprontei muito... Preparava armadilhas para minha avó Maria Ribeiro, quando ela vinha de São Paulo para nos visitar. Eram latas com água que penduradas na lavanderia e com um sistema feito com linha de nylon, de forma que quando ela passasse a lata derramasse a água... Deu certo uma vez! E deu certo também um enorme carão que levei de meus pais por causa disso, puro “terrorismo infantil”...

Mais mudanças... Agora para Messejana!

Não tinha a noção exata ainda do que estava acontecendo, na verdade. Idos de 1963. Faz muito tempo, de maneira que muitos fragmentos de memória podem ter ido para o espaço ou estar guardado em algum local atualmente sem acesso pelo sistema operacional da mente humana. Quando começo a escrever tenho a nítida sensação de que uma busca em minha mente começa a ocorrer, com se tivesse acionado um mecanismo de pesquisa. Interessante como isto ocorre.

Mas continuando, lembro bem da movimentação e que estávamos preparando uma “viagem”. Era o que significava para mim, que estava ansioso e com muita expectativa. Não entendia direito as coisas, mas sabia que iria para outro lugar. E os preparativos começaram. Observava tudo, principalmente a conversa de meus pais. Eles falavam para mim de um novo local, maravilhoso. Papai estava muito empolgado, disto eu recordo bem. E de vez em quando trocava idéias conosco.

Sei também que pouco tempo daquilo tudo acontecer eu fiz um passeio, com meus pais, e conheci rapidamente uma casa, com o terreno ao redor com muitas bananeiras, um coqueiro e até uma mangueira. Parecia um sítio para mim.  

Não sei direito como foi a montagem de tudo para o novo destino. Lembro apenas que fui à tarde, junto com minha mãe, no caminhão velho do Zé Paulino, que mais tarde iria me ensinar os primeiros passos e despertar minha vontade de dirigir. Depois de um grande percurso chegamos. O caminhão parou em frente daquela que seria a nossa casa por muito tempo.

Confesso que no início fiquei um pouco assustado com as pessoas que cercaram nossa chegada. Uns ajudavam a retirar nossos pertences e colocá-los na nova morada. Olhava ao redor e fiscalizava tudo, principalmente meus brinquedos, que eram muitos. Alguns ainda remanescentes de São José dos Campos, em São Paulo, onde nasci.

Em Messejana
Sempre fui muito cuidadoso com meus pertences. Guardava tudo arrumado em suas caixas e quando não possuía mais as embalagens originais criei o hábito de usar caixas de sapato ou de qualquer coisa para dividir uma gaveta, por exemplo. E a mania, que facilitou muito minha vida, persiste até hoje.

No decorrer da retirada dos móveis percebi a falta de um dos meus brinquedos favoritos – um avião de fricção (os mais novos não conhecem o sistema)... Ouvi o som deste meu brinquedo perto de nossa casa e avistei um menino da vizinhança com ele! Imediatamente fui pedir de volta e o guardei em casa. Depois de tudo retirado o caminhão ia voltar para trazer o restante das coisas. E eu decidi (logicamente após minha mãe ter deixado) ficar esperando na nova casa. E ao ficar esperando por muito tempo aproveitei para conhecer a pacata vizinhança. Na esquina existia a bodega do Seu Paulo. A construção, muito desgastada, ainda se mantém até hoje. Quando cheguei vi uma máquina grande, que fazia um barulho enorme quando ligada! E perguntei logo para o dono, Seu Paulo, que me explicou ser uma máquina de fazer caldo de cana, ou seja, uma garapeira...  O cheiro do caldo de cana era muito bom e eu fiquei com vontade de experimentar aquilo. Mas não tinha ficado com dinheiro. Como a vontade de provar o tal caldo de cana era grande perguntei ao Seu Paulo se poderia “pagar quando meus pais chegassem”. Ele gentilmente respondeu que sim, que não tinha problema, e me serviu talvez o que tenha sido o melhor caldo de cana de minha vida. Gostei muito, saciei a sede e virei um cliente da bodega...

Assim foi minha chegada a Messejana, uma terra de clima espetacular, muito agradável. Uma área extremamente tranqüila, sem movimentação de trânsito, sem violência, sem barulho e sem telefone. Logo me acostumei com o belo lugar. Na frente de nossa casa um terreno onde o Zé Paulino guardava o seu caminhão. Algum tempo depois ele me ofereceu para, a seu lado, “colocar o caminhão para dentro”. Nem alcançava direito a embreagem e dirigia este pouquinho em pé. Gostava muito quando coincidia a chegada dele e o oferecimento para dirigir o caminhão por alguns metros.  

A grande diferença de São José dos Campos para Fortaleza: onde nasci tinha todos os brinquedos, muitos livros, bolas, mas não tinha com quem brincar. O clima era frio (o da cidade e o das pessoas (a maioria de nossa vizinhança constituída por estrangeiros). 

E assim foi por muito tempo: o jogo de bilas (bolinhas de gude) com os colegas, na época das chuvas fazer barquinhos de papel que corriam pela enxurrada em nossa rua, as brincadeiras de cowboy, com revólveres de espoletas e a estrela de Xerife que só eu possuía e mais tarde o campinho de futebol que ajudei a fazer.

Lembro ainda de dois dentes de leite que a Dona Dalila, nossa vizinha, arrancou de mim com apenas uma linha. E depois do susto daquela extração completamente desconhecida para mim, com o dente arrancado na mão, tinha que jogar no telhado e dizer: “mourão, mourão, pega o meu dente velho e me dá um são”.  

Começaram os banhos na Lagoa da Paupina, nos finais de semana, em um clube que não recordo o nome, de uma associação local. A sede era bem pequena e passávamos por lá apenas pela estradinha que levava à margem da lagoa. Um barracão coberto servia de abrigo para o sol nas horas necessárias. As bóias de pneus de carro eram uma diversão e tanto.

Outras novidades foram às idas aos circos, quando passavam por Messejana. Cheguei a ver uma levitação, que para mim foi realidade pura! E nos intervalos do circo a turma toda comprava fotografias ¾ vendidas pelas belas moças circenses. Elas passavam por nós todos, na platéia e ofereciam as lembranças.

Uma época totalmente inocente, pura, agradável e inesquecível. Vale registrar tudo isso porque as crianças de hoje, das grandes cidades, não podem mais fazer o que nós fazíamos, sem estarmos conectados eletronicamente a nada! Tudo de bom em uma realidade natural, não virtual como hoje em dia.

Saudades de minha infância!   

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